Em data comemorativa, filhos relatam experiências de ter pais LGBTs

Em data comemorativa, filhos relatam experiências de ter pais LGBTs
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Como as famílias de pais LGBTs encaram o preconceito, as piadas e as descobertas

Nas últimas semanas, ganhou repercussão uma campanha de Dia dos Pais que tem como personagem o ator e empresário Thammy Miranda, sua esposa, Andressa Miranda, e o filho do casal Bento.

Desde que foi anunciada como protagonista do filme, a família virou alvo de ataques e ofensas por parte de bolsonaristas e de pastores evangélicos.

O episódio reacendeu questionamentos sobre paternidade, família e aceitação social.

Neste domingo 9, data em que se comemora o Dia dos Pais, CartaCapital abre espaço para que filhos de pais LGBTs relatem suas experiências sobre o assunto.

Ao fim do texto, ainda ouvimos um especialista que esclarece importantes pontos sobre o que, para muitos, ainda é  um tabu.

Filha de pai gay e famoso

Beatriz Lobo, de 27 anos, é filha do jornalista e apresentador Leão Lobo. Assim que nasceu, a paulistana entendeu que sua família não seguia o padrão imposto pela sociedade, mas isso, para ela, nunca foi um problema.

“Foi muito natural. Eu nasci e sempre soube que meu pai namorava um rapaz ou poderia vir a namorar. Sempre soube que minha mãe não era esposa dele. Ninguém veio e me explicou que ele era gay ou que eu era adotada. Tudo foi natural, eu não me lembro de nenhuma conversa. Foi tudo sem complicações”, conta.

A mãe de Beatriz trabalhava com Leão quando ficou grávida. Os dois resolveram que teriam a filha juntos e o jornalista assumiu a paternidade.

A paulistana, que seguiu a carreira do pai e hoje trabalha com ele, revela que a homessexualidade de Leão nunca causou trauma, mas episódios em que pessoas se acharam no direito de fazer piada sim.

“Teve um acontecimento na porta da casa do meu pai. Uma menina que vendia balas no farol me xingou e disse que eu era filha de viado quando eu estava chegando da escola. Eu subi para minha casa chorando, meu pai conversou comigo e ok. Fiquei bem depois disso”, conta.

Beatriz é mãe da pequena Laurinha, de 5 anos. A jornalista revela que, assim como foi com ela, trata o assunto de forma natural com a filha.

“Ninguém vai chegar para minha filha, por exemplo, e falar `olha, seu vovô é gay`. É natural, ela convive com as diferenças e pra mim é ótimo. E se alguém chegar, eu espero que ela fale ‘ah é, e daí?’ com naturalidade, sem se importar, porque isso não é o mais importante na pessoa. Não muda nada.”

 

Uma mensagem de filha para o pai:“Eu quero dizer que ele é o grande amor da minha vida e que tudo o que nós (eu, meu irmão e minha filha) somos é por causa dele, é por causa do amor dele e da educação que ele nos deu. Eu mato e morro por ele e ele sabe disso. Eu amo muito você, pai. Você é o nosso alicerce”, conclui Bia.

Dois pais de dois

Assim como o pai de Bia, o arquiteto e empresário Rafael Escrivão decidiu em 2015 que queria se tornar pai. Ele e seu companheiro Luciano adotaram o Allan e o Davi, dois irmãos biológicos.

Rafael, hoje com 33 anos, criou o blog Dois Pais, que compartilha dicas e experiências sobre a paternidade. Além disso, o empresário escreveu o livro “Dois Pais de Dois”, em que conta como foi o processo de adoção e os desafios da paternidade LGBT.

 

Juntos fora do armário

Quando se é LGBT, contar sobre a sexualidade ou gênero para a família muitas vezes é algo difícil e até mesmo traumático. Mas, para o gerente de vendas Matheus Calegari da Cunha, não foi. Isso porque o seu pai, Flávio, saiu do armário junto com ele. O mineiro, que hoje mora em São Paulo, ainda residia em Uberlândia quando resolveu, aos 19 anos, contar para sua mãe sobre sua sexualidade.

 “Quando contei para minha mãe sobre mim, ela acabou me contando também sobre meu pai. Eles já estavam separados há quatro anos”, relembra.

Pelo fato do pai ser militar, Matheus não imaginou que isso aconteceria. Ele recorda que ouvia alguns comentários de amigos quando era adolescente. “As minhas amigas achavam estranho ele gostar de Cher e Abba. Já existia um preconceito antes de ser realidade. O machismo fazia eu refletir sobre a sexualidade do meu pai antes da minha própria.”

Matheus tem um irmão, que é heterossexual, e uma irmã também LGBT. A liberdade colocada em prática por eles transformou a família do mineiro em um exemplo de modernidade. “O ex-namorado do meu pai tinha uma filha e também foi casado com mulher. Viramos uma grande família moderna. Nos almoços, estavam todos com seus namorados”, conta o mineiro, que hoje está com 31 anos.

“Ter um pai gay me ajudou muito na confiança que eu tenho. Os traumas decorrentes são mais da sociedade, pois percebo que os impactos na minha vida foram positivos”.

Uma mensagem de filho para o pai: “Pai, continue sendo você mesmo. A sua melhor versão é a que você aceitou agora o que você é. Você é incrível com um coração do tamanho do mundo. Você faz muita falta. Obrigado por você ter coragem de ser quem você é e por permitir que possamos ser quem somos, sem retaliação. Continue sendo essa pessoa incrível que você é”, emociona-se Matheus.

Dois pais e uma mãe

Ao contrário de Bia, que já nasceu com seu pai assumidamente LGBT, e de Matheus, que veio descobrir quando já era mais velho, o caso da estudante Mariana Warde aconteceu quando ela tinha apenas quatro anos de idade.

A paulistana, que hoje tem 21 anos, descobriu a sexualidade de seu pai quando ele se separou de sua mãe. “Não foi fácil nenhum pouco, pois eu passei por um período difícil de readaptação não só com o divórcio, mas com meu pai tendo um namorado”, conta a estudante.

E assim como os outros dois casos, o trauma na vida de Mariana não veio pelo fato do pai ser gay, mas sim de como a sociedade tratava o tema.

“Era muito diferente de todas as minhas amigas e foi um choque. Eu não estava entendendo nada. Demora para você entender que não é sobre você, e sim sobre ele. Hoje, eu fico muito feliz que ele tenha conseguido entender o que ele é, o que ele gosta e como ele pode ser feliz. Bom, conseguimos virar uma família”, diz.

Até terminar o colégio, Mariana admite que tinha medo de falar sobre a sexualidade de seu pai e sofrer bullying, todavia, isso mudou quando a paulistana entrou na faculdade e se sentiu mais livre.

“Teve um menino que eu fui conversar em uma festa e ele só chegou e falou: você que é filha do boiola? Eu dei um soco no nariz dele. Hoje eu não daria um soco, eu falaria: ‘sou mesmo, e dai?’”.

Seu pai, Ricardo, é casado com Mario. Atualmente, a estudante diz que sua família é formada por dois pais e uma mãe.

Uma mensagem de filha para os pais: “Para os dois pais, Ricardo e Mario: aos 4 anos de idade eu ganhei uma família que eu não esperava ter e acabou sendo a melhor família possível. A gente viaja junto, ri junto, briga junto. Vocês são os melhores pais do mundo. Eu não ganhei um pai só, eu ganhei dois”, conclui Mariana.

O olhar de um especialista

Todos esses depoimentos apresentados por filhos de pais LGBTs mostram que o problema claramente não está nos pais, mas em como a sociedade lida com o assunto. O psiquiatra Bruno Branquinho confirma que o problema está no preconceito.

“Uma família que não seja cis ou heterossexual é uma família como todos as outras. Não tem impacto negativo sobre crianças ou adolescentes. Essas famílias provêm amor, cuidado, atenção como todas as outras e isso não tem impacto negativo. O que pode ter um impacto psicológico negativo é o preconceito que a sociedade pode direcionar a elas por conta desses pais que não são cis ou héteros. O problema não é a família e sim a sociedade e os ambientes que os adolescentes frequentam”.

A critica de que a sexualidade dos pais vai interferir na dos filhos é refutada por Branquinho.

“A sexualidade dos filhos não é determinada pela sexualidades dos pais. Se assim fosse, todos os filhos de pais heterossexuais seriam heterossexuais. Também nas famílias homossexuais os filhos não serão também. A sexualidade é algo individual e não é determinada pelos país”.

E o que o psiquiatra recomenda para essas famílias?

“Não há nenhuma recomendação específica para pais homossexuais ou trans na criação ou condução. É a mesma para qualquer pai: preste atenção no seu filho, converse com ele, veja se há alguma queixa nos ambientes que ele frequenta. Caso isso aconteça, converse. Entenda o que pode ser feito. Em caso de preconceitos, converse sobre isso em casa. E, caso seja necessário, procure um psicólogo”.

Muito obrigado por ter chegado até aqui…

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